segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Ainda a maternidade

Esta coisa da maternidade é uma viagem constante. Ora estamos bem ora mal, ora cansadas ora contentes – ora cansadas e contentes ora cansadas e a sentirmo-nos miseráveis. Ontem li as palavras de uma recém-mãe [tão recém quanto eu] que dizia, e cito “Então aproveitei para ler páginas sobre bebés e babyblogs. E, de tudo o que lia, aquilo era tudo espetacular. Quando os filhos não eram espetaculares, as mães é que eram perfeitas. E que mesmo que não dormissem, diziam que era a melhor coisa do mundo.[…] A vida e os Instagrams dos outros eram todos muito bonito, mas acho que não era muito real. Mães muito felizes, produzidas, bebés que não se sujam... Não estou a dizer que não é a realidade delas, mas identifico-me mais com quem quer descansar, com quem está cansado...”

E depois de a ler, ocorreu-me que se calhar temos mesmo que falar disto. Não só por este extremo de que ela tão bem fala – “mães muito felizes, produzidas, bebés que não se sujam” – mas também pelo seu oposto. Porque é difícil,  de facto, em Portugal, ver relatos que não estejam num extremo ou noutro: por um lado, os blogues e Instagrams das mães mais estilosas do país: sempre impecáveis, sempre bem maquilhadas, com filhos super bem-vestidos e bem dispostos, sempre na crista da onda, quantas delas a fazerem dos filhos chamariz de marcas que possam patrocinar aquela felicidade e alegria que nunca passam porque os seus filhos não choram, não passam noites sem dormir, não 
fazem birras, não as fazem exasperar.

Do outro lado, os blogues e Instagrams das mães para quem é tudo horrível: que realmente a maternidade é muito pior do que disseram, que não é possível ter aquele aspecto lindo e feliz, que os putos passam dois anos – pelo menos! – sem dormir, e que a vida é toda um inferno. Tirando, talvez, o blogue ‘A Mãezónia’, não é MESMO fácil encontrar um espaço onde seja possível ver alguma vida real no que se lê. 
Daquela vida que mostra que há noites do demo em que nenhuma maquilhagem nos vale, mas que os sorrisos deles pela manhã acabam por nos fazer, sabe Deus como, acordar bem-dispostos. Daquela que mostra que há semanas maravilhosas em que podemos, sim, andar produzidas, maquilhadas e descansadas, mas outras em que não. Em que há dias em que só queremos chorar e outros em que a felicidade abunda. Blogues que nos mostrem que há mães como nós, para quem ter tido um bebé não foi um drama, mas que obrigou a uma reorganização doméstica; que admitem que as discussões conjugais aumentaram ora pelo sono, pelas hormonas ou só mesmo porque agora temos que tomar decisões muito relevantes para a família; espaços que mostrem que ter um bebé é normal mas às vezes é desesperante e que há dias em que pensamos “no que é que me fui meter” ou “se calhar agora devolvia a criança”…blogues, redes sociais, grupos, espaços que sejam, enfim, honestos.

Aquilo que a aquela recém-mãe diz lá em cima, mais do que ser verdade, é sintomático da nossa sociedade: queremos ser sempre mais e melhores do que os outros (ou então mostrar que o vizinho está completamente errado e portanto deturpamos a nossa própria realidade) ao invés de querermos ajudar. Garanto-vos que se todas fôssemos mais honestas sobre esta coisa da maternidade (que é duríssima seja em termos físicos, emocionais e sociais), todos ganharíamos. A batalha de “eu sou uma mãe melhor / mais gira / mais esperta do que tu” ou de “o meu filho dorme/ come/ porta-se melhor do que o teu” é mais do que ridícula: é perigosa. E desonesta.  

8 comentários:

  1. Para mim a maternidade, ainda não aconteceu, aliás ainda não passou da infertilidade. E considerando a falta de honestidade que existe entre quem já passou por esse caminho e quem está a passar é de tal forma mesquinha que imagino que na maternidade as coisas não sejam muito diferentes.
    A infertilidade é uma merd@, e não devia ser um tabu mas é. E principalmente não devíamos fingir todas que é tudo perfeito e que o mundo é sempre lindo!
    Somos todas muito pouco honestas e excelentes a mostrar no instagram vidas perfeitas que não existem…

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  2. Acho que o "problema" é que, por alguma razão, se acha que a normalidade não é assunto. Se não é maravilhoso e se não é horrível... não há por que falar. Mas se calhar era importante mostrar que há este lado em que não se passa porra nenhuma... são só miúdos que às vezes estão óptimos e outras vezes parecem possuídos, somos só nós, as mães, que às vezes conseguimos sentir-nos a Wonder Woman e outras vezes mal conseguimos respirar.

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  3. Ainda há uns dias fiz um post sobre algo menos positivo e de algumas lágrimas e frustrações porque achei importante partilhar.
    Ao falar com uma amiga que foi mãe recentemente e partilhando as minhas frustrações ela diz que ajudou imenso porque sentia o mesmo e achava que era só ela...
    É importante sermos verdadeiros com os outros porque senão quem vê acha que é um alien... mas acho que tem mudado e tendo amigas que já foram mães sei que há coisas boas e más mas que passa, tudo passa...

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    1. Eu também fiz, e também falo disso. Mas as pessoas continuam a não gostar: se falas do que é mau, dizem que és exagerada; se falas do que é bom, dizem que estás fantasiar, precisamente porque o comum é ouvirem relatos extremados. É importante que a mensagem passe para fora.

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    2. Vamos continuar a ser honestas ;) quem não gosta temos pena!

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  4. Adorei. Espero que tenha acrescentado o meu blogue ao team dos honestos. Eu já acrescentei o seu.
    Um beijinho.

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