quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Neste Natal vamos...

...comprar menos brinquedos, roupas, livros e demais bugigangas que tantas vezes acabam em quermesses. Vamos olhar para o que temos em casa e podemos oferecer (sim, o re-gift é um hábito saudável), vamos perguntar às pessoas de que precisam ou o que gostavam mesmo de ter e tentar dar-lhes isso, sem gastar um salário inteiro?

...vamos comprar menos, e menos em lojas enormes de grandes cadeias e procurar nos artesãos, nas feiras, nas lojas de rua?

...vamos olhar para os nossos vizinhos, colegas do lado e saber se têm necessidades que não estejamos a suprir?

...vamos perguntar nas associações e instituições perto de nós que contribuições podemos dar para ajudar os que estão próximos a ter um melhor Natal?

...vamos embrulhar os presentes com papel de revista ou de jornal, reutilizar sacos de papel, usar papel de seda ou outro que possa ter outra utilização para além de uma única?

...vamos desperdiçar menos dinheiro (e comida, e tempo) em almoços e jantares de Natal que na verdade só tentam colmatar as ausências do resto dos meses?

...vamos tentar que os nossos filhos não recebam 30 presentes que só os vão fazer sentir que têm tudo aquilo que querem, e dosear - ao longo do ano - a entrega dos que receberem?

...vamos lembrar-nos verdadeiramente do sentido do Natal - nascimento, renascimento, renovação, amor, vida - e deixar de lado o consumismo desenfreado em que se transformou?

Se dermos mais abraços, mais atenção, mais bondade, desconfio de que teremos, verdadeiramente, um Natal melhor. E consequentemente, um mundo melhor [um daqueles onde não há pessoas a serem vendidas a 300 euros; crianças abandonadas à sua sorte sem famílias que as queiram; velhotes sozinhos sem que cuidem deles..]

Feliz Advento!

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Por que deixamos a depressão ganhar?

Desde pelo menos de 2011 – isto equivale a uma pesquisa muito rápida – que os números não mentem: os portugueses estão consistentemente entre os mais deprimidos da Europa. Os números são assustadores – um relatório da OCDE revela que em 2014 havia uma incidência de 17% de depressão crónica nas mulheres, em Portugal – e é preciso atentar neles rapidamente, antes que seja tarde demais.

Durante os anos da crise, os estudos apontavam para a falta de emprego e a incerteza como factores a pesar consideravelmente na incidência das depressões. No entanto, isso não explica tudo. Há também alguns estudos que mostram uma evidência entre a falta de sono – os portugueses estão também entre os que menos tempo dedicam ao sono – e a falta de saúde mental.

Mas o que leva a que um problema destes, com números públicos, não seja tratado pelas autoridades? E o que leva a que socialmente não sejamos pessoas atentas a isto? Como é possível que os anos passem, os números continuem a aumentar, e nós continuemos a assobiar para o lado? Que tipo de pessoas somos nós, que deixamos que tanta gente viva deprimida mesmo ao nosso lado?

Eu tenho algumas coisas a dizer sobre o assunto – como pessoa que já passou por duas depressões, há coisas que se sentem de forma diferente, vos garanto J:

1.      Ligamos pouco às doenças mentais. Muito pouco. São um tabu que é preciso quebrar, porque muita gente sofre de doenças mentais e isso não faz delas más pessoas ou pessoas loucas. Temos que desmistificar o assunto e fazer ver a todos à nossa volta que é legítimo sentirmo-nos mal, às vezes. Porque esta tentativa constante de fingir alegria durante toda a vida faz com que estas questões se agravem. As doenças mentais existem, temos que aprender a lidar com elas e não achas que quem as tem é uma pessoa fraca. E isto leva ao ponto dois…
2.       Somos uns fingidos. Somos, generalizando, e com o risco que as generalizações acarretam. As redes sociais vieram piorar tudo, porque as pessoas adoram fingir que estão felizes, que têm o emprego de sonho, que têm tudo o que querem, que têm muitos amigos. Mesmo que muitas vezes estejam mais sozinhos do que nunca. Ao invés de procurarmos mostrar uma vida bonita nas redes sociais, era boa ideia ligar aos nossos amigos, de vez em quando, a perguntar como estão realmente: como estão as coisas em casa, no trabalho, se têm tido tempo para hobbies, se querem ir jantar.
3.        A felicidade não é o mesmo para todas as pessoas, verdade? Então, paremos de fingir que queremos ser todos como as pessoas dos blogues da moda, porque há algumas pessoas que também são felizes sem fazer yoga, ir a restaurantes fancy e sem ter a roupa da última coleção ou a decoração mais incrível em casa. Algumas nem sequer sentiam essa necessidade antes desta vaga de “felicidade através do ter cenas e fazer viagens e tudo e tudo e tudo”. É importante respeitarmos isso.
4.       Educação: os últimos dois pontos podiam ser resolvidos através de uma educação cuidada. É importante explicarmos aos mais novos que não é o que temos ou onde comemos que nos define. O que nos define são os nossos valores. A nossa verdade. Tudo o resto poderá tornar-se fonte de angústia e, consequentemente, levar a estados depressivos – porque no fundo estamos a viver para expectativas que nem sequer nos pertencem.
5.       Temos muita vergonha de dizer que estamos tristes. Hoje em dia a tristeza não é permitida. Os lutos não são permitidos. Dizer a verdade não é permitido. Toda a gente se ofende, toda a gente acha que sabe o que é melhor para o outro…guardar tudo isso para dentro faz mal, e faz com que as pessoas sofram sozinhas, pensando que estão erradas, de alguma forma. Não estão. Às vezes estão só doentes, mesmo e precisam de ajuda. Quando alguém vos disser que se sente deprimido, não julguem. Encaminhem a pessoa para ajuda profissional. As pessoas que têm depressões não são fracas. Simplesmente precisam de ajuda!
6.       As depressões não se tratam sozinhas. Muitas vezes são precisos remédios, muitas vezes é precisa terapia. E não faz mal! Porque se nós tratamos do corpo indo ao ginásio ou fazendo uma massagem; se tratamos do cabelo no cabeleireiro; se tratamos das unhas na esteticista, por que raio não podemos tratar da nossa alma?



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