terça-feira, 17 de outubro de 2017

E agora, o que fica?

As reportagens deste verão – as fotografias, as imagens, os textos – devem passar a constar dos programas educativos. Estas pessoas que, desamparadas, lutaram contra um fogo inatacável, são os heróis de uns tempos em que a solidariedade e a empatia já não existem e precisam de ser rapidamente repostos.

Nestas aldeias longe de Lisboa, do Porto ou dos centros de decisão onde se passeiam as elites, cada um teve que tentar valer a si e ao do lado, mesmo que isso significasse que idosos andassem de baldes ou ramos nas mãos, sem qualquer formação ou sequer capacidade física. Valeram-se uns aos outros, porque “não podem ficar à espera dos bombeiros”. E não ficaram. Nos entremeios, morreram mais 36 pessoas – que se juntam às 65 falecidas no incêndio de Pedrogão Grande. Há 3 meses e meio. Nos entremeios, ficou um bebé de um mês. Também ele não podia ficar à espera dos bombeiros?...

Estas reportagens, estes relatos na primeira e na terceira pessoas, têm que passar a constar dos programas educativos – não temos disciplinas de educação cívica? –  porque muito do que se passa hoje em matérias de incêndio tem mão humana – nem toda criminosa, mas humana. Cada beata deitada ao chão, cada garrafa de vidro abandonada, cada pedaço de terra descurado, cada porção de lixo atirada para onde for. A displicência com que nos tratamos e ao ambiente são meio caminho andado para tragédias destas – a falta de consciência do que a desertificação faz ao país; a falta de consciência do que o desperdício provoca; a falta de consciência do que estamos a provocar com o consumo desenfreado e inconsequente.

Estas reportagens, estas mortes têm que passar a fazer parte dos programas educativos porque nós não andamos a educar cidadãos. Andamos a fazer crescer pessoas sem escrúpulos, de onde saem depois as nossas ‘elites’, os nossos governantes que, perante uma catástrofe, dizem que não podemos contar com os meios que o Estado tem obrigação de ter à disposição dos cidadãos para os salvar. Os nossos governantes, alegadamente os melhores de nós, que nem sequer têm a humildade de perceber que falharam. Falharam ao não ouvir quem mais sabe; falharam ao ignorar avisos sobre o perigo que se avizinhava; falharam ao não querer saber de populações que, estando isoladas o ano inteiro, mais isoladas ficam quando uma tragédia lhes bate à porta.

Os alegadamente melhores de nós não querem saber se o José, de 70 anos, perdeu o sustento depois de ter salvado, sozinho, a sua casa, ou se Maria Joaquina viu vizinhos – as suas companhias de sempre – morrer. Aos alegadamente melhores de nós importa nada que o padre António, de 80 anos, tenha passado dez horas a acartar e distribuir baldes de água para tentar salvar as suas três paróquias. 
A quem é alegadamente melhor do que nós, a quem está a ocupar um cargo que exige sentido de Estado, importa pouco que aquela gente que pouco tinha, tenha ficado sem nada. Sobretudo, tenha ficado sem os seus. Importa pouco que três meses depois de uma tragédia, por erros precisamente iguais, tenhamos perdido mais pessoas, mais terras, mais esperança. Porque em Lisboa segue tudo igual. Porque no Parlamento, mais lei menos lei, a vida continua e aqueles incêndios, aquelas perdas, dizem pouco a quem no Orçamento do Estado para 2018, depois da tragédia de Pedrogão, não ocorreu aumentar a verba para o Ministério da Administração Interna e prever mudanças no combate aos incêndios, flagelos a que, ainda por cima, “teremos que nos habituar”, segundo António Costa. 

Ali, em São Bento, continuará a encomendar-se o almoço na hora das sessões plenárias, continuará a comer-se na cantina ou no restaurante do lado, e continuará a haver um tecto, aquecimento, e um salário na conta no final do mês. 

As nossas elites, as pessoas que devem ser o nosso exemplo, não foram sequer capazes de fazer aquilo que se pede às crianças desde que começam a ter entendimento: pedir desculpa. Por não terem sido capazes de proteger os seus. Nem estou a pedir que elenquem já as razões pelas quais falharam, mas como líderes que se espera que sejam, deviam pedir desculpa. Porque não fizeram tudo o que era possível para salvar o bebé de um mês que morreu longe dos pais, também eles mortos neste incêndio infernal. Como vamos nós dizer aos nossos filhos que pedir desculpa é nosso dever, quando aqueles que nos devem servir de exemplo não têm a humildade para tal?

Estes fogos têm que ser usados como exemplo de falta de cidadania, de empatia, de cuidado: são os mais fortes que devem proteger os mais fracos. É para isso que os elegemos. É isso que apregoam os sucessivos Executivos. Estes fogos têm que começar a entrar, como exemplo, na cabeça dos mais novos rapidamente, para que percebam que as acções de todos têm implicações na vida de todos. Que juntos, em gestos pequeninos, podemos criar um mundo melhor.


Estas tragédias têm que nos ajudar a criar cidadãos melhores do que nós: mais exigentes, mais reivindicativos, mais engajados, mais socialmente atentos. Pessoas envolvidas na política e movimentos de cidadania, crentes no sistema, activos nas lutas. Se tem que ser pela violência das imagens, das mortes, do drama, que seja. Mas que estas 100 mortes não sejam em vão. Que estas perdas não se fiquem apenas por isso mesmo: por perdas.

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