terça-feira, 8 de agosto de 2017

A [terrível] dependência dos avós

Se há coisa que sempre me fez confusão foi a dependência que a sociedade portuguesa tem dos avós - no outro dia voltámos a falar disto, lá em casa, porque a todos incomoda o mesmo. Somos estranhamente e ao contrário da maior parte dos outros povos, absolutamente dependentes dos avós, que acreditamos terem um qualquer 'dever' para connosco.

Antes não podia falar do assunto porque recebia inevitavelmente como resposta um "não és mãe, sabes lá!". Agora que já sou, e até já passou mais de um ano, pode ser que já possa dizer algo sobre o assunto.

Não sei onde começa o problema, e desconfio de que tem três focos distintos. Mas por um temos que começar:

1. Temos um sistema laboral que não funciona - não há horários decentes para as pessoas poderem passar tempo com os filhos, nem salários que permitam contratar alguém que cuide deles para nós trabalharmos. Eu adoro trabalhar e não trocaria a minha carreira pela maternidade a tempo inteiro, mas seria bom dispor de condições que me permitissem, por exemplo, ter uma pessoa que todos os dias ficasse com a miúda e não tivéssemos que andar no corre-corre dos horários da escola - e muita sorte temos nós, que temos horários absolutamente flexíveis e podemos continuar a trabalhar desde casa. As empresas penalizam quem sai cedo, quem precisa de ficar em casa, quem tem filhos, no geral. É um nojo.

2. Temos um sistema escolar que não funciona - o mesmo Estado que não impõe regras que facilitem a vida dos pais nas empresas é o mesmo que impõe regras e horários nas escolas que não fazem sentido nenhum com as necessidades laborais. E é o mesmo que não fornece escolas suficientes para que nos não levem metade do salário em mensalidades ridículas. A essas mensalidades - que mais de metade do país não pode pagar - acrescem depois os alargamentos de horários para além das 17h (!!). E ainda se ouve um "a menina não devia ficar tanto tempo na creche" quando se vai buscar a miúda 9h depois de a ter lá deixado, como se não tivéssemos que trabalhar 8h por dia...

3. Temos uma sociedade podre: os filhos acham que os pais têm obrigação de cuidar dos filhos deles, e os pais não sabem dizer que não. Não temos avós [como os alemães ou os franceses ou os holandeses] que sejam capazes de olhar para os filhos e dizer: "Amiguinho, gosto muito de ti, mas já passei a minha vida a cuidar de ti. Agora vou viajar, descansar, apanhar ervas do jardim...viver a vida de que fiquei privado tanto tempo". Temos filhos que têm filhos já a contar com a ajuda dos avós e sem os quais não conseguiriam viver - porque ninguém lhes disse que era isso que deviam fazer.

Eu acho incrível que os netos passem tempo com os avós - desconfio de que são dos melhores presentes que lhes podemos dar - mas não por obrigação. Porque os avós são para se estar de vez em quando. Têm a vida deles e têm zero obrigação com filhos que não são deles (não, avós não são pais duas vezes. São avós!). E se houvesse mais avós a dizer que não, havia mais gente a lutar por escolas com horários melhores e por regras decentes no mundo laboral (salários, horários, you name it).

Porque ninguém luta por coisas das quais não precisa. Deixaria de haver pessoas a chorar porque "não tive outra solução se não deixá-lo com os avós" e passaria a haver pessoas a dizer "vou fazer o pino até encontrar uma solução porque tenho que o fazer". E consequentemente havia pais mais felizes e uma sociedade mais saudável. Porque nós devemos lutar pelas coisas que fazem sentido: conseguir ter as condições certas para cuidar dos nossos filhos sem contar com quem já fez a sua parte é uma delas.

E se tantos povos no mundo o conseguem fazer, nós também conseguimos. Só precisamos de fazer por isso.


4 comentários:

  1. concordo inteiramente apesar de ter cravado a minha mãe para vir cá um mês para evitar por a miúda na creche antes dos 6 meses. Mas a minha mãe e pai estão na pre-reforma e vivem longe de nós por isso ela nem se importou e disse logo claro que sim se lhe der os fds de folga ahahahah...
    Acho que é bom se poderem ajudar mas em pequenas coisas como umas semanas nas férias escolares, um fds p os pais irem namorar, etc... Como educadores a quase tempo inteiro de facto já tiveram a conta deles...

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    1. Naturalmente. A minha também passa férias com os avós, e também fica com eles de vez em quando para uma saída, porque temos viagens a trabalho ou o que seja. E é incrível. E faz bem a todos. Mas apenas de quando em vez e SE eles quiserem. Não por obrigação :)

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