terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Letras & Magnólias | Controlo



"Na minha vida, há claramente um a.F. (antes dos Filhos) e um d.F. (depois dos Filhos). Antes dos filhos eu era a epítome do logo-se-vê. Tinha uma enorme dificuldade em fazer planos a mais de 24h. Sabia lá eu o que me iria apetecer fazer amanhã! Não me perguntassem se ia sair na sexta, se queria ir jantar fora no sábado, se estava disponível para um lanche no domingo. Tudo o que implicasse decisões com mais de 24h de antecedência não era para mim. Andava ao sabor da corrente: sem amarras, sem pressões, só eu e as minhas vontades.

Depois vieram os filhos e uma crescente necessidade de saber com o que posso contar. E começou a nascer uma vontade absurda de controlar tudo o que diz respeito à minha vida. Foi uma reviravolta interessante e muito, muito chata. Para mim, obviamente. Dantes, não me aborrecia com nada. Se dava, dava, se não dava logo se via. Agora, tudo o que não consigo controlar provoca-me stress.

Até posso mudar os meus planos em cima da hora, mas não posso depender do acaso. Ora isto é uma rotunda estupidez. Porque os acasos são isso mesmo: acasos, incontroláveis por natureza, inesperados por definição. E quem se lixa sou eu, que sofro horrores no mesmo deste meu desejo de controlar tudo.

Preciso de saber sempre o que tenho para fazer, quando vou fazer, como e onde. Preciso de saber com o que posso contar. Se posso organizar o meu dia como eu quero ou se tenho tarefas que envolvem outras pessoas pelo meio. Preciso de alguma tranquilidade, basicamente. O espaço para a criatividade e para o “apetece-me” está lá, mas sou eu que o controlo.

E eu não era nada assim. E tenho saudades de deixar tudo nas mãos do acaso e de viver no universo do logo-se-vê. Mas crescer tem destas coisas: já não sou só eu, há várias vidas a orbitar em torno da minha e é a minha responsabilidade com essas vidas que faz com que eu sinta que preciso de dominar tudo à minha volta. Uma canseira, só vos digo."

A minha versão do controlo está no blogue da Lénia. As usual.

Tentação 0 - 1 Meg

Na semana passada apercebi-me de que estava há demasiado tempo a fazer aquilo que sempre disse quenunca faria daminha vida: um roteiro igual, todo o santo dia, de trabalho-casa-trabalho. Comecei a dormir mal, a andar exausta, a sofrer com problemas que não são meus, a bater mal, no fundo.

No final da semana deixei de me queixar e resolvi passar à acção: agarrei no saquinho, voltei a inscrever-me na piscina, marquei uma aula de canto e impus-me [e a quem de direito] algumas regras. Não sei durante quanto tempo as conseguirei cumprir, mas hoje, por exemplo, cumpri-as sem a mínima vontande.

Acordei e arrastei-me para o pequeno-almoço. Tentei agilizar os músculos mas o corpo não queria responder. Comi, demorei 15 minutos a escolher a roupa, porque obviamente nada ficava bem, e lá me arrastei para fora de casa. A resmungar.

Peguei no carro, para depois não perder tempo - na verdade em sete minutos chego lá a pé - e ir directamente trabalhar e lá fui eu. Ia com dez minutos de avanço para entrar na aula que queria e nadar 30 minutos. Estive 35 à procura de lugar. Trinta e cinco minutos sem conseguir estacionar o carro. Trinta e cinco minutos em que o universo gritava: desiste!!

Não desisti. Não sei como, que estava com vontade zero, mas recusei-me. Não era negocável. E não é o universo que decide. Sou eu! Dei mais quarenta voltas e consegui estacionar a tempo do turno seguinte da piscina.

Entrei, já cansada pela espera, e atirei-me para dentro de água depois de ouvir as senhoras da idade da minha avó a falar sobre as novas séries da 2. "Ah, não tens box? Então posso contar-te o episódio de ontem! :)" Nadei durante 30 minutos, mais 100 metros que no Domingo. Nadava mais, mas decidi que não. Não quero pecar por excesso.

Saí de dentro de água exausta. Comi as bolachinhas de aveia e dediquei-me ao trabalho. Cheia de sono. Com o corpo moído. Mas com uma incrível auto-estima  por ter conseguido resistir à tentação da desistência.

Tentação 0 - 1 Meg

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Stand up for the fight

A vida não se resolve sozinha. A vida corre!, sem que possamos fazer grande coisa em relação a isso, mas ela resolve-se na medida em que lhe pegamos nas rédeas e decidimos que rumo ela deve levar.

A vida resolve-se connosco. Que temos que fazer a nossa parte nos caminho a seguir. Que temos que ter sempre presente se queremos ir para onde a vida nos leva ou se somos nós quem decide para onde vai.

A vida - eu acredito que é Deus. Há quem acredite que seja o Universo. Vamos dizer que é a vida - mostra-nos sinais. Dá-nos pistas. Coloca-nos pessoas no caminho. Controla timings. Mas ela não se resolve sem mim.

A vida dificilmente me ergue a cabeça e me faz lutar. Dificilmente faz por mim o meu trabalho. Dificilmente dá o meu tempo e o melhor de mim aos outros. A vida não me impede de baixar os braços e não se comove com o meu estado de espírito. Isso é a minha parte. A vida da-mr as armas com que lutar. Mas a luta é minha. É de cada um. A vida ajuda, no limite. Mas não. A minha vida não se resolve , nem eu queria que se resolvesse, sozinha. A vida é minha. E eu tenho muito a dizer sobre como quero que ela aconteça.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Borgen. Ou a [minha] vontade de mudar o mundo

Acabou na semana passada uma série que vi por acaso. Por acaso e porque o meu editor não parou de dizer para eu a ver enquanto eu, efetivamente, não me sentei à frente da TV para tentar perceber o que tanto encantava gente tão diferente daquela redação.

No Sábado em que decidi ver Borgen acho que me atirei a uns quatro ou cinco episódios seguidos - não seria nada de transcendente se cada um não tivesse mais de uma hora. Uma série dinamarquesa que me consegue prender assim...

Birgitte Nyborg [interpretada por Sidse Babett Knudsen]

 A política, o poder, os media, o norte da Europa, os dramas familiares, pessoais, profissionais de uma forma simples, com diálogos que faziam sentido e com tudo o que é natural acontecer nas vidas reais. Uma série absolutamente brilhante - a melhor que vi nos últimos tempos - sem ser norte-americana e sem ter UM ator conhecido. [Naturalmente, uma vez que são todos dinamarqueses, e digamos que eu não acompanho lá muito a coisa.. :P]


Adiante. Borgen acabou na semana passada. Como obviamente eu não consegui acompanhar diariamente, no Sábado à tarde, enquanto chovia lá fora, nós acendemos o aquecedor, trouxemos a manta e a roupa confortável, e vimos os quatro episódios que nos faltavam.

E foi horrível. Foi horrível porque eu não queria que a série acabasse, em primeiro lugar. E depois foi horrível porque me atirou para uma imensa crise existencial, em que de repente comecei a duvidar de toda a validade do que faço todos os dias.

um amor.

A protagonista - Birgitte, uma mãe de dois filhos, lindíssima sem ser uma Giselle Bündchen, portanto, uma pessoa normal - conseguiu ser tudo aquilo que eu um dia gostava de ser quando for crescida: fiel ao seus princípios, séria, com o coração no lugar, com falhas, com erros, ambiciosa, serena, com problemas reais (cancros, filhos adolescentes com problemas, divórcios, problemas profissionais)  e com objectivos, com sucessos. É certo que é uma série e que aí é tudo maravilhoso (mas ela nem sequer teve um crescimento previsível [aplausos para os produtores!]) mas fez-me realmente pensar: o que é que eu mudo, todos os dias? Que diferença faço, todos os dias?

Quando num dos últimos episódios ela explode porque de repente está cansada de tudo - a caminho do hospital - percebi perfeitamente o que ela queria dizer: às vezes ficamos cansados de fazer tudo o que achamos correcto, tudo o que parece ser o bem, tudo o que sabemos estar certo, corresponder à verdade e aos nossos princípios; tudo o que não faz mal a outros, tudo o que não vai contra as regras e contra as leis. Porque fazemos isso tudo e parece que nunca chega o reconhecimento, o mérito, os frutos a colher. Parece. No fundo, sabemos que um dia tudo isso nos chegará. Sabemos que fazer o que é bem traz coisas boas. Sabemos que não deixarmos de ser fiéis a nós próprios em busca de outras coisas será, no final, o que nos fará ser melhores. E sabemos que não podemos desistir disso. Mas cansa.



Porque há momentos em que a luta contra o mal - sim, ele existe. E nas sábias palavras da T., os nossos dias, a nossa vida são, efetivamente, uma constante luta do bem contra o mal - parece que não dá frutos. Que são sempre os que fazem menos bem a colher louros.

No final de Borgen, quando Birgitte chega novamente ao Christianborg - "a minha segunda casa" -  foi recompensada. Por tudo o que fez de bem. Por tudo o que recusou fazer e ser. E eu descobri que quero mesmo é ser como ela [sim, ainda temos idade para ter exemplos e para nos encantarmos com a fantasia. Ainda temos idade para querer mudar o mundo]. Mesmo que me pareça, às vezes, que o caminho é demasiado tortuoso.




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Childfree #2

Há dois anos, sensivelmente, escrevi aqui sobre o fenómeno que estava a chegar um pouco a todo o mundo.
Este ano decidi ir eu mesma à procura das mulheres portuguesas que não se importavam de falar sobre a sua opção. Não foi fácil - as pessoas bem tentam dizer que não é um assunto tabu mas isso é tão verdade quanto eu saber fazer arraiolos. Houve as que não quiseram falar, as que falaram mas não quiseram fotografias, as que nem sequer me responderam.

Mas houve também as que aceitaram assumir publicamente uma posição que já é a de 8% da população portuguesa em idade fértil. . Portanto, parece que é hora de falar sobre isto, sem grandes moralismos, críticas ou opiniões. Falar, só, e perceber o que está a mudar nos portugueses.

A reportagem é da semana passada mas lembrei-me de que há aqui muita gente que leu o que escrevi em 2013 sobre os trabalhos feitos, na altura, no Brasil e nos EUA. Portanto, é ler tudo aqui, pequenas microalgas:)

Que isto dos filhos é coisa séria e é preciso saber como estamos a evoluír :)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

44 days and counting

Já toda a [pouca] gente que me lê sabe que eu adoro fazer aniversário. A sério. Faltam praticamente dois meses e eu obviamente já ando a contar os dias. Este ano muda-se de década, e eu estou a sentir isso espetacularmente. Estou preocupada mas ansiosa por chegar aos 30. Acho que devem vir acompanhados de uma serenidade que me faz falta e que começo a sentir a descer sobre mim...

Seja como for: aniversário permite que façamos wishlists. A deste ano, infelizmente, tem o mesmo item especial que a do ano passado - houve coisas que nos levaram de casa que nunca vou conseguir substituir, como o meu anel de noivado, do qual tenho saudades todos os dias. Mas ai de mim se não chego aos 30 com uma mala de pessoa crescida, igual ou não à que recebi aos 29.

Portanto, é escolher:

Pode ser esta;

ou

esta;

  Comecemos por aqui. Os restantes items - poucos, minha gente, poucos - ficam para os dias que ainda faltam.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

It's London calling...

Não é preciso muito para nos encher o coração. Não é mesmo. Cerca de 48horas, passeios infindáveis onde a conversa nunca se esgota -  "para nós dois dias é o mesmo que um café para as pessoas normais..ahah"  - mesmo que haja mais frio que conforto. Partilhamos as almofadas às gargalhadas e já sabemos quando a outra acordou. Até conhecemos a cara de fome, de friiio, de nervoso, de felicidade.

"Lembras-te de como estávamos há um ano?". E como estaremos daqui a mais um? Vamos passando pontes que elas ajudam a lavar a alma, os olhos, o espírito. A abrir o sorriso.

Fev 2015

A vida torna-se mais fácil quando temos quem nos dê a mão durante o caminho. Os amigos são, tantas vezes, o nosso maior suporte, amparo e rampa de lançamentos. Com eles aprendemos a ser melhores, a querer mais, a querer melhor.

E como sentimos a falta dos nossos amigos-família, às vezes temos mesmo que voar até ali ao lado só para poder ter 48 horas de ombro. De gargalhadas. De caminhada. De parvoíce. De amor. De passeio, de exposições, de discussão política, de família. E bom, não podemos dizer que é uma viagem aborrecida :)


V&A, um amor à primeira vista

Let's have lunch under this ceiling?


A melhor revista do mundo, para terminar
O longe faz-se perto assim nós o queiramos. É mesmo só isso: querer. Muito. Que voltamos sempre de coração cheio depois de umas horas destas. E chegamos já a pensar quando podemos regressar, com o coração cheio de gratidão por serem estas as pessoas que tornam a nossa vida um lugar incrível mesmo quando a vida nos coloca umas pedras pelo caminho.

"Que o mal existe e tem que ser combatido todos os dias. E fazer o bem é mesmo uma luta dura". E lutar com companhia é lutar com mais força :)


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Agradecer, novamente

Água fria. Carro parado. Um humor de cão. Muito muito muito trabalho. Dos dois lados. Horários absolutamente loucos, com muito tempo incontactáveis, com muito que fazer e com pouca margem para resolver problemas. Que tiveram que ser resolvidos. E foram.


Obrigada, D.

Respirar fundo. Inspirar. Parar. Expirar - a A. manda e nós fazemos. Encomendar álcool para o fim de semana (ahah) e agradecer aquelas flores que nos chegaram às mãos da proveniência mais inesperada. Flores que são o ponto bom no meio de um dia horrível. As mesmas flores que vieram acompanhadas da nova vida que finalmente conhecemos e que já está de partida para terras de calor. As duas coisas que fizeram o dia ser bom, no final.

[Isso e o sushi comido no chão da sala, em família, já na perspetiva de um banho quente, afinal]

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Adeus, [loucos anos] 20

Quando a F. muda de idade, eu sinto-me imediatamente em pânico. O que não faz sentido nenhum, porque nós temos cinco meses de diferença e portanto é só tonto. Mas por alguma razão sempre olhei para o aniversário dela como o que antecede o meu e quando ela chegou aos 30 bateu a primeira badalada do pânico.

Ainda me lembro de sermos miúdas e acharmos que aos 30 a nossa vida ia ser incrível, com um marido, quatro filhos, uma casa com jardim, cães, o trabalho de sonho, todas as viagens que quiséssemos..íamos ser adultas assim à séria.


Há umas semanas a SuriCreme entrou nos 30, e como já é seu apanágio, decidiu convidar a malta para se despedir à grande dos anos 20. Festa é festa e portanto toda a gente tem que estar a rigor para dizer adeus a uma década e tanto e dar as boas-vindas aos espetaculares anos 30.


Estou a pouco tempo dos 30, tenho um marido espetacular e não tenho filhos. Mas tenho um gato, tenho um trabalho que adoro e faço umas viagens porreiras, apesar de ainda não serem todas as que queria. Não sei se somos adultas à séria. Na verdade, acho que somos as mesmas miúdas, ainda, mas com vida de gente crescida, com tudo o que isso tem de bom e de mau.


Os 30 estão a chegar e eu sempre disse que não ia fazer diferença nenhuma. Mas na verdade eles estão quase a bater à porta e eu sinto algo de estranho. Não sei o que é, mas é como se efectivamente alguma coisa fosse mudar. Provavelmente não mudará nada. E nem sinto isto por achar que os 20 foram os melhores anos da minha vida - acho, acredito realmente que o melhor ainda está por vir, e vivo nessa expectativa ou isto não teria graça nenhuma. Sinto que algo vai mudar, mas que cá dentro a miúda bochechuda e loira que adorava brincar às lojas de coisa nenhuma, às barbies e que adorava passar o Verão a ler e reler os livros da Casa na Pradaria vai continuar a mandar nisto.

Não vou dizer adeus aos anos 20 vestida a rigor. Já o fiz, pela M. Mas vou certamente receber os 30 na certeza de que tenho as pessoas mais incríveis - e mais infantis, e mais histériacas e mais tolas e mais maravilhosas - na minha vida. E vou pedir, de coração, que fiquem cá por mais 30 anos, para ver se aos 60 somos finalmente adultos.
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