quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Frente e Verso: Sobre o bullying...


Frente - Lénia 

Outra coisa não seria de esperar: miúda feia, olhos rasgados, óculos gigantes, a melhor aluna da turma e com um nome esquisitinho. Alvo perfeito, portanto. Durante anos fui gozada por toda a gente. Caixa-de-óculos, toupeira, chinesa, lêndea, ténia. Sei que houve mais nomes “carinhosos”, mas estes são os que ficaram guardados. Não sei muito bem como é que “sobrevivi” ao bullying, confesso. Mas sobrevivi.

Lembro-me de ser excluída de tudo o que era cool: os meus colegas iam todos ao café, mas deixavam-me propositadamente para trás. Havia festas para as quais eu não era convidada. Não tinha um grupo de amigos, fazia as vezes de satélite de uma data deles. Mas não me chateava muito com isso. Continuei a estudar, a ser a melhor aluna da turma e mantive o nome que os meus pais me deram (apesar de ter considerado a hipótese de o mudar… mas só o podia fazer aos 18 anos e tinha a certeza que, quando chegasse essa altura, já não ia ter importância nenhuma.

Houve, inclusive, uma miúda que andava na mesma escola que eu - mas de quem nunca fui colega de turma - que implicava comigo de tal maneira que deu o meu nome a uma cadela que teve, só para ter o prazer de andar pela rua a dizer “Lénia, senta”. Maravilhoso.

Sei que nunca liguei muito ao bullying que fui sofrendo. Talvez por saber o que era e por ter uma personalidade forte (sempre tive, não adianta negar). E nunca dei parte de fraca. Numa das vezes em que me ameaçaram numa aula. A rapariga chegou ao pé de mim, encostou o nariz ao meu e ameaçou que me dava uma carga de porrada. Respondi qualquer coisa como “força, gostava de ver isso”. Claro não me deu carga de porrada nenhuma.

Mas este bullying foi antes do advento da Internet e as coisas começavam e acabavam ali, na escola (ou onde fosse, mas era uma coisa localizada e pontual). Até podíamos ser gozados, mas não passava disso nem saía daquelas fronteiras. Os pais não nos defendiam de tudo e mais alguma coisa e não nos tratavam como se fôssemos principezinhos (os meus, pelo menos, não me tratavam assim!). Éramos responsabilizados pelo que fazíamos e ai de mim se levasse queixas para casa ou se chegasse aos ouvidos dos meus pais que eu andava por aí a asneirar.

Havia respeito, mais do que outra coisa. Hoje em dia perdeu-se o respeito. Aos pais, aos professores, à autoridade. Os mais velhos são “apenas” gente que tem que se dobrar à vontade dos miúdos e quem manda são estes e não os outros.

Hoje em dia vale tudo. É permitido pisar para subir. E tenho para mim que isto tem muito a ver com a ausência de figuras de autoridade em permanência na vida dos miúdos. Os pais trabalham e os filhos acabam por andar um bocado ao Deus dará, sem regras, sem rédeas e sem dar cavaco a ninguém. E depois, a forma de compensar os filhos pelas ausências passa por lhes dizer “amém” a tudo, por permitir tudo. E, algures nos últimos tempos, os filhos passaram a ser vistos pelos pais como seres perfeitos, a quem nada pode ser negado. Só que depois a atenção que falta aos miúdos em casa é compensada com estas buscas desesperadas por atenção e por validação - eles só querem ser os maiores e que toda a gente saiba disso.

Acredito que todos os pais querem o melhor para os filhos. Só que o melhor para os filhos não são gadgets, nem viagens, nem roupa de marca. É atenção, é carinho. E isso só pode ser dado por quem está presente, por quem se entrega no dia a dia à tarefa de educar.

E com isto desviei-me do bullying… ou talvez nem por isso…


 [Como habitualmente, a minha opinião sobre isto está no blogue da Lénia]

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